O artista
maldito
Ele passou para a história como
um dos exemplos mais notórios do artista maldito, do gênio
desajustado, do homem incompreendido por seu tempo, mas que foi
aclamado pela posteridade. Ao longo da vida, sofreu uma série
interminável de infortúnios: desilusões amorosas, crises
nervosas, misérias financeiras. Foi tratado como louco, ficou
várias vezes exposto à fome, à solidão e ao frio. Ridicularizado
pela maioria de seus contemporâneos, hoje é considerado um dos
maiores mestres da pintura universal.
Vincent Willem van Gogh nasceu em 30 de março de 1853, em uma
pequena aldeia de Groot-Zundert, na Holanda. O irmão mais velho,
que também fora batizado como Vincent, nascera um ano antes,
1852, igualmente em 30 de março, mas morrera com apenas seis
meses de idade. Assim, a criança recém-nascida vinha ao mundo
com a responsabilidade de ocupar o lugar que o destino roubara
ao primogênito.
Por isso, van Gogh foi obrigado a abandonar cedo a escola, para
ajudar no sustento da família. Filho de um pastor protestante,
conseguiu aos 15 anos o emprego de empacotador e despachante de
livros na cidade de Haia, numa filial da prestigiada galeria
Goupil, de Paris. Ali, manteve seus primeiros contatos com a
arte e com artistas.
Foi transferido para a filial de Bruxelas e, em seguida, para a
de Londres. Mas, após ser rejeitado por uma jovem inglesa pela
qual se apaixonara, caiu em depressão, buscou refúgio espiritual
na religião e acabou demitido. A partir de então, passou a ter
uma existência mística e errante. Alternou empregos subalternos,
viveu como vagabundo e foi pregar o Evangelho para camponeses e
mineradores no interior da Bélgica.
Em 1880, enfim, trocou a fé pela arte. Mas a sua inquietação
existencial continuou, ainda mais intensa. Apaixonou-se
novamente, desta vez por uma prima, que também recusou-lhe o seu
amor. Em 1882, conheceu a prostituta Christine Sien, grávida e
alcoólatra, com quem passou a viver durante alguns meses, até
que a convivência entre os dois se tornou insuportável. Nesse
período, os quadros de van Gogh ainda possuíam cores e tons
predominantemente escuros.
Após a morte do pai, em 1885, o artista nunca mais retornaria a
Holanda. Fixou-se inicialmente na Antuérpia e, depois, decidiu
ir a Paris, onde passou dois anos e descobriu a pintura luminosa
dos impressionistas. "O ar francês limpa o cérebro e faz bem",
escreveu à época, antes de decepcionar-se com a rivalidade entre
os artistas locais e a vida agitada da cidade grande.
Foi na pequena e ensolarada aldeia francesa de Arles que a
pintura de Vincent van Gogh encontrou o cenário ideal para dar o
grande salto artístico, a partir de 1888, apenas dois anos antes
de sua morte. As cores - sobretudo o amarelo - explodiram com
intensidade nas telas, mas o deslumbramento e a obsessão pelo
trabalho minaram-lhe a saúde física e mental.
Em Arles, pintou cerca de 200 quadros e fez 100 desenhos. Ficou
esgotado e foi internado em um asilo, após uma série de colapsos
nervosos. Em um deles, investiu contra o colega Paul Gauguin,
armado com uma navalha. Terminou por decepar a própria orelha,
que presenteou a uma prostituta.
Em meados de 1890, aos 37 anos, viajou para a cidade francesa de
Auvers-sur-Oise, para tentar descansar e recuperar a saúde. O
médico recomendou-lhe a pintura como terapia. No dia 27 de
julho, saiu em direção a um trigal, igual a tantos outros que já
pintara. Mas não levava telas e pincéis, e sim uma pistola.
Voltou a arma contra o próprio peito e apertou o gatilho. Não
resistiu ao ferimento. Morreu por volta de uma e meia da manhã
do dia 29.
No início daquele ano, recebera uma boa notícia: finalmente um
trabalho seu, o quadro "A videira vermelha", conseguira
encontrar comprador.
Sob o signo da paixão
A rigor, a obra de Vincent van Gogh não pertence a nenhuma corrente artística específica. Na falta de uma classificação mais precisa, costuma-se incluí-la no rótulo genérico do pós-impressionismo, termo criado posteriormente para definir um grupo de artistas, de diferentes estilos e tendências, surgidos no final do século 19. Ao provocar uma ruptura com seus antecessores, anteciparam alguns pressupostos da arte moderna do século 20.
O impressionismo originara-se em Paris, entre 1860 e 1870. A invenção e a popularização crescente da fotografia impuseram aos artistas um dilema incontornável: qual a função que restava à pintura, se o novo invento era capaz de retratar o "real" com a maior fidelidade possível? Como solução para o problema, os impressionistas propunham que as artes plásticas, em vez de sucumbir diante do advento da fotografia, deveria superar a fase realista e se concentrar em formas subjetivas de captar o mundo, dando ênfase à luz e ao movimento.
Os primeiros trabalhos de van Gogh, feitos ainda na Holanda, revelavam uma forte preocupação social ao retratar, com tons sombrios e monocromáticos, a vida miserável dos camponeses, em um momento em que a Revolução Industrial modificava a vida nas grandes cidades e provocava uma onda de pauperização extrema na zona rural.
Em Paris, ao entrar em contato com os impressionistas, van Gogh deixou de lado as cores escuras e passou a explorar a luminosidade e um cromatismo intenso. Mas sua arte não se submeteria aos princípios seguidos pelos colegas parisienses. Na verdade, levaria o impressionismo às últimas conseqüências, radicalizando a experiência de representação subjetiva da realidade.
As pinceladas rápidas e enérgicas, as formas contorcidas e uso de cores primárias conferiam às telas uma dramaticidade única e revelavam a alma atormentada do artista. Van Gogh antecipava assim algumas características básicas do expressionismo, escola que romperá de vez com os padrões tradicionais de beleza. "Procuro exprimir as mais terríveis paixões humanas. Quero pintar o retrato das pessoas como eu as sinto e não como eu as vejo", dizia o artista

Na região do Brabante holandês, em Groot Zundert,
a 30 de março de 1853, nasce este gênio da pintura, cuja obra só foi possível graças
a enorme confiança depositada em seu próprio destino e da ajuda do irmão
Theo. O pai, Theodore van Gogh, era pastor, a mãe,
Anna-Cornelia Carbentus, era filha de um encadernador da corte. Família
honrada, antiga1 tradicional, mas pobre. Desde o século XVI,
os van Gogh eram eminentes burgueses, com certo pendor pelas artes.
Vincent era o primogênito de seis irmãos. Pouco sociável, gênio arredio
gostava de vagar pelos campos, demonstrando amor à natureza. Nenhum
irmão, a não ser Theo, quatro anos mais moço, consegue fazer-lhe
companhia em suas solitárias incursões ecológicas. Este relacionamento
fraterno será permanente por toda sua curta vida, sensibilizando a
aqueles que, porventura, tiverem as mãos às cartas de Vincent a Theo.
Aos 16 anos, o jovem Vincent van Gogh consegue empregar-se na Casa
Goupil, em Haia, estabelecimento francês na Holanda1
importante galeria de arte. Assim, van Gogh deixa para trás o seu sempre
nublado de sua aldeia, a sombria e triste Groot Zundert, sua nervosa mãe
e o severo calvinista, seu pai. Deixa mais: a infância melancólica,
o tédio de menino triste e solitário. Vincent sente-se desajustado
em seu lar, em sua terra, naquela sociedade repressora. Sabe disso. Ao
aceitar o convite de um tio, gerente da Casa Goupil, sabia que estava
fugindo de tudo isso. Permanece em Haia por três anos, de 1869 a 1871.
Neste ano e enviado a filial de Bruxelas, onde fica dois anos. Depois,
sempre em busca de conhecer novos mundos, segue para a Goupil de
Londres, onde fica por mais dois anos, quando sente a necessidade de
exprimir-se, desenhando cenas do Tamisa em suas horas vagas. Primeira
decepção: apaixona-se por Úrsula, filha da dona da pensão onde mora, mas
e repelido. Em meados de 1874 volta à Holanda.




