Divino maravilhoso
"A escultura é a arte de representar a matéria". São palavras do próprio Michelangelo, escultor, pintor e arquiteto italiano, conhecido entre seus contemporâneos como o "Divino", uma maneira no mínimo justa de se referir a este que, ainda em vida, já era visto como um artista completo, talentoso, de espantosa memória visual e técnica irrepreensível.

O rosto da Virgem em Pietà (1497-1500), que Michelangelo esculpiu pra Basílica de São Pedro, no Vaticano, não representa dor, mas resignação diante do corpo de Cristo em seu colo.
Nascido em 1475 na pequena cidade de
Caprese, próxima a Arezzo, Michelangelo di Ludovico
Buonarroti Simoni era filho de um magistrado que também
possuía uma mina de mármore e uma pequena fazenda.
Criado por uma ama-de-leite cujo marido era cortador de
mármore, um Michelangelo ainda pequeno já convivia com o
material que lhe seria tão caro durante toda a vida.
Inicialmente contrários às aptidões artísticas latentes
no filho, os pais de Michelangelo acabaram concordando
em deixá-lo ingressar, aos 13 anos, como aprendiz do
pintor Domenico Ghirlandaio. Pouco mais de um ano depois
o jovem artista entrou para a escola de escultura de
Lorenzo de Médici, poeta e entusiasta das artes em cuja
residência havia um jardim com estátuas clássicas
italianas. Estava travado o contato do futuro escultor
com aquelas que seriam sua obsessão durante toda a vida:
esculturas de corpos nus e atléticos.
Lorenzo morreu e, após dois anos na residência dos
Médici, o artista foi obrigado a voltar para a casa do
pai, em 1492. É nesse período que Michelangelo se dedica
ao estudo da anatomia humana, dissecando cadáveres na
Igreja do Santo Espírito, em Florença. Esses
conhecimentos seriam fundamentais para a excelência
atingida posteriormente em suas esculturas, que
revelavam um conhecimento detalhado de cada músculo do
corpo humano.
Após breves períodos em Veneza e Bolonha, Michelangelo
fixou-se em Roma, onde foi convidado a trabalhar para o
papa Júlio II, dando início a um relacionamento
conturbado que inauguraria o "período heróico" do
artista. O grandioso túmulo encomendado a ele por Júlio
II, com quarenta grandes estátuas à sua volta, nunca
seria concluído, devido principalmente às brigas entre
os dois. Júlio II era vaidoso e impaciente, mas não
negava sua imensa admiração por Michelangelo.
Foi servindo a esse papa, também, que Michelangelo
realizou sua mais extraordinária obra: as pinturas no
teto e paredes da Capela Sistina. Ainda que os afrescos
não fossem sua especialidade, o "Divino" não desapontou
e criou uma espetacular sucessão de cenas e personagens
bíblicos, onde os corpos dos personagens se contorciam a
fim de caberem na curva das paredes laterais. O trabalho
levou quatro anos para ficar pronto.
Nas palavras do pintor e arquiteto italiano Giorgio
Vasari, seu contemporâneo, as representações de figuras
humanas criadas por Michelangelo têm "o vigor e o apelo
da carne viva". Sua intenção ao criar as fantásticas
esculturas em mármore definem seu espírito: Michelangelo
desejava liberar uma figura aprisionada dentro do bloco
de pedra, e considerava o trabalho terminado somente
quando o "conceito" inicial se apresentava totalmente
visível, revelando a forma desejada pelo escultor.
Michelangelo escreveu ainda livros de poesia e foi
também um grande arquiteto, tendo projetado, entre
outras obras, a impressionante cúpula da Basílica de São
Pedro. Admirado por seus conterrâneos e considerado o
maior artista de seu tempo, continuou trabalhando até
sua morte, aos 89 anos, em Roma. Seu último pedido, já
no leito de morte, foi ser enterrado em sua amada
Florença.






